Meu nome é João Paulo Parodi, 46 anos, carioca e um entusiasta das guerras mundiais desde a infância.
É difícil identificar o que desencadeou esse gosto pouco infantil, mas uma pista em particular insiste em resistir.
Em meio às fotos de família na sala de casa, havia uma que se destacava das demais pela sua singularidade.
Era a única foto em preto e branco. Estampava o retrato de um sujeito de gorro, com um cigarro no canto da boca. Ele não sorria e também não transmitia nenhuma emoção mais evidente. Encarava o fotógrafo com um olhar austero, de quem parecia sugerir ter vivido algo que não era possível de ser colocado em palavras.
Muitos anos mais tarde comecei a reunir condições para entender não só quem era aquela figura, mas o que havia se passado com ela.
Afinal, o sujeito era meu avô, que se deixou fotografar em um hospital militar durante a Primeira Guerra Mundial. Ele se recuperava de um dos quatro ferimentos graves que sofreu durante a sua jornada na Grande Guerra, uma experiência que atravessou seus 16, 17 e 18 anos de vida.
Hoje, essa foto estampa os perfis nas redes sociais do que viria a se chamar Warpedia. Um espaço que discute e relembra um mundo não tão distante assim, onde dezenas de milhões de pessoas, também não tão distantes de nós, foram profundamente desafiadas a encarar uma realidade que, ainda bem, não existe mais.

Paolo Carlo Parodi, símbolo do Warpedia, recuperando-se de um tiro na panturrilha. Itália, 1917.
As duas guerras mundiais transformaram o mundo de uma maneira difícil de dimensionar. Fronteiras desapareceram, impérios acabaram, países foram redesenhados e dezenas de milhões de pessoas morreram. Muito do mundo em que vivemos hoje nasceu, de alguma maneira, daqueles conflitos.
Mas talvez sejam justamente esses números e essa dimensão monumental que fazem tudo parecer mais distante do que realmente está.
Por trás de cada fotografia, documento, uniforme, carta ou objeto havia alguém. Gente que teve medo, passou fome, sentiu saudade, tomou decisões, acertou, errou, sobreviveu ou simplesmente desapareceu no meio de acontecimentos muito maiores do que ela.
É esse o lugar que mais interessa ao Warpedia.
A guerra é o ponto de partida, mas não exatamente o destino. Ela permite falar de História, memória, cultura e, sobretudo, de pessoas. Sem transformar o passado em caricatura e sem precisar glorificar a guerra para reconhecer o fascínio e a importância de estudá-la.
No Brasil, existe ainda uma história que merece atenção especial. Mais de 25 mil brasileiros atravessaram o Atlântico para lutar na Segunda Guerra Mundial. A trajetória da Força Expedicionária Brasileira é parte da nossa própria história e, ao mesmo tempo, uma extraordinária porta de entrada para entender um conflito que envolveu praticamente o mundo inteiro.
Quase um século depois, a maneira de contar essas histórias mudou. Os fatos, não.
Cada geração merece descobrir e entender a História com a linguagem do seu tempo.

Eu, com uma tripulação de um tanque Sherman, na Normandia, durante as comemorações dos 75 anos do Dia D, em 6 de junho de 2019.